segunda-feira, dezembro 19, 2011

Túneis da liberdade

Contarei pra vcs meu sonho de hoje.


 " Hoje era para ter sido um dia feliz, pois era aniversário de uma pequena menina cujo nome não descobri.
Era fim de tarde e a cozinha da casa estava uma barulheira.
O senhorzinho que entrara na cozinha era o pai da família e pedia muitas desculpas por ter se esquecido do aniversário da filha caçula. 
Observando tudo, abri a geladeira e vi que o bolo esta intacto, não haviam cantado parabéns ainda.
Perguntei se eu podia comer a torta de limão e deixar a torta de morango para a comemoração, mas a garotinha estava realmente decepcionada com o pai e não queria mais que fosse seu aniversário. 
Pegou o casaco mais quente, desses que fingem pele de animal, passou-o por cima de seus cachos loiros  e se enfiou em uma pequena portinha escondida no fim da cozinha. Brava e chorosa a garota se aninhou lá.

De repente a parede que a separava de nós não existia mais. 
Várias câmeras surgiam e revelavam que a cozinha na verdade era um cenário, tudo estava sendo filmado.
Aquilo não era um lar, não havia liberdade ali. Tudo era monitorado.
Foi o fim do esconderijo da garota.
Assustada com a cena a pequena garota correu para baixo da poltrona e se escondeu. O barulho dos bastidores era intenso e ela não queria ser achada. Ainda estava brava e não entendia porque sua casa parecia fazer parte dos bastidores de um filme.


A medida que o som daquelas pessoas estranhas ficavam mais altos ela apertava mais o olho e se encolhia mais. Ao abrir uma fresta de olho viu um gato. Ali tinha um túnel bem pequeno. Sem pensar entrou nele.


Foi parar em uma floresta fria e cheia de gelo, com altos pinheiros. Ali muitos animais pequenos corriam. Por impulso correu também. Acabou entrando em outro túnel, mas este tinha a largura de uma bola de tênis.

Ela havia virado um coelho marrom bem fofinho.
Esse outro túnel a levou para uma toca. Era um esconderijo logo a baixo de uma mesa grande, cheia de livros. Não saiu da toca por um tempo, ouvindo o que as pessoas de fora diziam.
Os homens que passavam pelo local estavam perseguindo pequenos fugitivos. Pelo que deu para entender todo a cidade era uma prisão, ninguém entrava nem saia dela. Porém alguns poucos percebiam isso e não aceitavam a situação. Todos esses viravam pequenos animais e eram perseguidos, caçados e torturados.

Um dos que falava era um dos poderosos da cidade, filho da família que mantinha a cidade desse jeito. Parecia ser um dos melhores caçadores de fugitivos. 
Logo eles deixaram o local, mas o que ela não sabia é que o garoto desconfiava de sua presença.
Antes dele sair deixou vários livros e papeis em cima da mesa, olhou para a mesa, riu consigo mesmo e saiu.

A pequena garota, que agora era um coelho, saiu do buraco que se encontrava em baixo da mesa sem olhar para trás. Olhou ao redor. Estava em uma sala grande, com piso de madeira, carpete de veludo vermelho nas  paredes. Uma das paredes dava em uma sacada e do lado oposto era uma área aberta cheia de pinheiros e neve. 

Resolveu olhar a mesa.  
Haviam muitos papeis... um livrão grande e alguns outros menores espalhados.
Começou a folhear o grandão. Nele havia apenas muitas silhuetas e mulheres. A medida que corria as páginas elas começavam a tomar forma até que por fim havia apenas uma cabeça desenhada. Era uma moça feita de lápis de cor. Sentiu vontade de não ser mais um coelho.
Passos.
Voltou para baixo da mesa com medo.

- 'Ratos, com certeza eu ouvi barulho de ratos!'
Os caras maus estavam voltando. 
Olhou para o pedaço de madeira que tampava o buraco na qual outra hora estivera escondida, naquele pequeno pedaço de madeira estava desenhado um coelho igualzinho a ela. 
Não era hora de pensar naquilo, entrou no buraco e tampou-o. 
Infelizmente o coelho colocou a madeira do lado errado e dois olhos feios e esbugalhados, entalhados na madeira, ficaram expostos do lado de fora, em baixo da mesa.

 Só havia um caminho no túnel, seria muito fácil ser pega lá dentro, então,  aproveitando-se de um inicio de buraco que havia no túnel, ela começou a cavar loucamente na direção oposta da que viera.
Não ia dar tempo, ela ia ser pega.
Foi então que eu apareci. Não ia aguentar vê-la sendo pega, seja lá onde eu estivesse.
Chamei o rapaz e comecei a conversar.

Havia um cantinho aberto no chão entre o chão da sala e a parece que ia para fora da casa.
De alguma forma eu sabia que o buraco que ela cavava ia dar ali e novamente ela correria o risco de ser pega. Portanto como quem não quer nada comecei a aumentar aquele buraco, na direção da parede que saía.
O moço era muito simpático e não resistiu a uma conversa.
Cavei, cavei cavei.... tudo começou a tremer e o chão da sala desmoronou.

Não havia entulho algum com o desmoronamento, também não havia coelho, nem ao menos o moço caçador.
O lugar mudou de cenário. Eu estava em uma casa de barro e sem teto. Andei pela casa procurando algo familiar mas não havia nada, apenas paredes.
Em meio as andanças encontrei duas amigas minhas da faculdade/estágio. Elas sabiam como sair de la, então fui com elas.
Chegamos em uma parede. Haviam dois caras  e uma corda.
Bastava subir para sair de lá.
Elas começaram a fazer graça para os moços e eles começaram a falar coisas porcas e idiotas.
Fui ficando brava e resolvi subir por conta própria. Peguei a corda.
Ambos os caras pararam o que estavam fazendo e foram me dar bronca em tom de brincadeira.
Montaram uma escada de cimento em segundos, mas esta não encostava na parede, precisando dar um pulo enorme para que esta cumprisse o objetivo de me levar lá para cima do muro.
Irritada, subi pela corda.

Visto de cima o muro era bizarro, pois havia um vão muito grande entre o lugar em que eu subi e onde os moços estavam. A essa altura eles já estavam bravos e gritando, por eu estar do outro lado.
A altura que me separava do chão era enorme. De um lado estava a casa do outro um outro lugar, beeeeeem lá em baixo.
Haviam várias barras no muro então se eu tomasse cuidado até dava para descer.

De canto de olho vi que lá em baixo,do outro lado do muro, no chão, tinha uma parte de vidro e nela estavam presos dois coelhinhos, um mini-pinguim e um pintinho. Pulei la para baixo em pânico que alguém os visse.
Pulei de barra para barra e descobri que o novo local era uma academia. Não haviam pessoas ainda.
Abri o vidro que estava no chão.
Os pequenos animais estavam desmaiados, em meio a água.
Aquilo era uma armadilha.
Havia um túnel na floresta, feito pelo caçador, que dava ali naquela vidraça. Como ali havia água quente com sei lá o que, os animais se acomodavam e com o calor desmaiavam.
Enfiei os 4 em um tupperware que eu tinha em mãos, coloquei dentro da blusa para ninguém ver e saí correndo.

Acabei indo parar em um corredor.
Na primeira entrada que tinha eu entrei. Era uma imensa porta quadrada cheia de água quente e com vários idosos.Tive que parar de correr para não chamar atenção.Como todos eles estavam ali para tratar de reumatismo, não era comum a entrada de jovens, por isso me encurvei e fiz cara de idosa, se é que isso é possível.Andei o mais rápido possível.
Passei por um corredor cheio de lojinhas de rejuvenescimento até que no fim do corredor havia uma praia.
Olhei para os lados sem saber pra onde ir.Havia algo estranho naquela praia. O horizonte era belo mas estranho.Me dei conta de que tudo aquilo era falso. O horizonte era apenas um telão.Tinha que haver em algum lugar dali uma saída, uma parede, um escape.

'Pera, tem algo errado naquela lojinha.'
Do lado de uma das lojas, em plena areia, havia um pedaço de grade que não fazia sentido nenhum.
Eis a minha saída! Pulei na direção do buraco, me espremi o máximo possível e passei.
Ali estava uma lona, dividindo dentro e fora daquela cidade.
Saí na verdade em uma sacada. Atras de mim lona, na frente tendas que mais pareciam cafés. Ao meu lado a grade da sacada.
Ouvi uma voz entranha, pulei para o beiral da sacada. Lá em baixo apenas uma floresta de coníferas que terminavam em um lindo rio gelado.
-'Você!? é daqui de fora? Nunca te vi. Porque está no beiral?'
- 'Sou sim, estou apenas comendo um doce aqui na beirada.'

Comecei a comer, literalmente, uma colher que eu havia achado por ali. A moça que havia feito a pergunta se deu por satisfeita e foi embora.
Era  arriscado demais para eu ficar ali, estava passando muita gente. Todos com vestimentas totalmente diferentes da minha.
Pulei.

Mesmo sendo um abismo, havia uma parte mais alta, o final da prainha falsa que estava do outro lado da lona. Nessa área havia areia e o muro de uma imensa casa, na qual se encontrava toda a cidade.
Como a atendente da loja me viu, corri em direção a floresta, com os animais resgatados, sendo que um deles era provavelmente a garotinha.
Corri em busca da liberdade, fora daquela prisão, em uma floresta não mais tão fria."



Gostaria muito de saber se, agora, do lado de fora  conseguiríamos ajudar outros a fugir.
Gostaria de saber se o caçador viria para o nosso lado.
Mas nunca vou saber... porque minha bexiga ficou cheia e eu precisei acordar. 

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